Arquivo da categoria: Crônicas Obsessões

Os tentáculos da esquerda

O domínio narrativo da esquerda — até então hegemônico, antes de irmos às ruas e passarmos a ocupar espaços — continua vitimando um enorme número de pessoas, sobretudo os mais jovens.

Quem lembra, por exemplo, que na esteira das manifestações de 2013, Dilma prometeu uma reforma política que jamais saiu do papel? Sorte a nossa. A reforma que interessava a ela ou ao PT não é a que interessa ao povo.

Com a crise política generalizada que vivemos, sorrateiramente eles voltam à tona com essa pauta torta. Perceba: Se você sai à rua e questiona um indivíduo: você é a favor da reforma política? Provavelmente ele dirá: “Claro! Tem que mudar tudo que está aí!”

No entanto, no bojo dessa proposta vem perspectivas nada atraentes, que só favorece a eles, os poderosos da esquerda. Coisas como democracia direta e participativa ou o fim do financiamento privado de campanha.

Afinal, que bichos são esses?

Democracia direta é, na prática, o que a Venezuela implementou ao criar uma sub-representação entre o parlamento e o povo. E por que não funciona? Porque a proposta é de se criar mais uma camada burocrática no Estado, com cargos, funções, atribuições e poderes. Os detentores, é claro, seriam pessoas ligadas a “grupos sociais” e “entidades de classe” que, convenientemente para quem os defende, são legítimos representantes do povo.

Nossa democracia é capenga, mas não é criando mais uma camada burocrática e corrupta no Estado que resolveríamos isso. A falha da democracia representativa é atribuir poderes e privilégios demais aos representantes; isto é, à classe política. Ao invés de se pôr mais um empecilho entre representante e representado, o ideal é retirar dos representantes suas atribuições e mordomias indevidas, o aproximando do representado em um Estado menor.

Assim, nos livraríamos do atual modelo, onde o cidadão ao ser eleito representante — do povo, deixa de ser — do povo, ao receber tantos privilégios e poderes que o afastam da realidade em que vivia e a qual deveria representar.

O caso do financiamento privado é parecido. Neste momento em que assistimos, estarrecidos, a promiscuidade entre poder e iniciativa privada, a narrativa esquerdista ganha força. Num primeiro momento, muitos são levados a crer que o financiamento privado é realmente um vilão, mas basta perceber que a proibição não inibe a propina e a corrupção para mudar de ideia. A demonização da iniciativa privada, intenção primária de quem defende essa tese, é instrumento daqueles que querem passar tudo às mãos do Estado e da “elite dirigente” que assalta nossas estatais.

Enquanto houver o motivo para se comprar políticos, haverá propina e corrupção. Seja declarada em forma de doação eleitoral, seja em caixa 2 ou coisa que o valha. Como no caso da democracia direta, a única forma de se evitar que essa relação promíscua entre o setor privado e o poder estatal se perpetue, é retirando da classe política e dos burocratas o poder e a influência de regulamentar mercados e facilitar entraves que eles mesmos colocam justamente para cobrar o “passe”. A propina é o pedágio do empresário. Sem a motivação, míngua a razão da propina, e os políticos já não terão favores a vender aos empresários.

Toda essa compreensão é o que me levou a defender e militar por um Estado menor. São teses inegociáveis que precisam ser defendidas com garra, buscando representantes realmente competentes e comprometidos com a administração, e não com o poder. Se não entendermos isso, se não estivermos preparados física e intelectualmente, jovens e pessoas bem intencionadas cairão na armadilha de reproduzir e ajudá-los a alcançar exatamente o que eles querem, sem sequer perceber. É bom ficar, atento.


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31 de julho: por que devemos voltar às ruas?

Qual é o teu estilo de esporte, físico ou mental? Se for o primeiro, temos o exemplo do futebol. Dominar o meio-de-campo é essencial para trocar passes e manter o time no ataque, em busca da vitória. Quem controla o meio, em geral, controla o jogo. Se for o segundo, falo do xadrez. Assim como no futebol o domínio do meio — neste caso, do tabuleiro — é essencial para as pretensões do jogador, que é chegar até o rei. Derrubar o rei é o gol do xadrez.

E tomar as ruas e os espaços públicos através de militância e pressão é o equivalente na política a esses dois exemplos. Meios de comunicação, universidades e militância em espaços públicos. Eis a lista tríplice dos locais fundamentais para se ocupar em vista de se pôr em vantagem frente aos adversários políticos.

Quem seriam eles? Não é segredo: a esquerda, os populistas, os socialistas e demagogos em geral. Todos aqueles que assistiram babando de ódio ao povo brasileiro tomar às ruas para destituir um governo de esquerda, capitaneado por Dilma, a búlgara, e seu padrinho Luís Inácio.

Se por mais de 13 anos eles conseguiram vender utopia aos pobres para colher poder à elite dirigente, só foi possível porque, antes de chegar ao poder, eles ocuparam com inteligência gramsciana os três espaços supracitados como indispensáveis. Não é por acaso que, tendo se levantado uma reação contrária nesses três ambientes, a fúria dos monopolistas saltou a proporções inéditas, revelando de vez a sanha intolerante de seus apoiadores. A quem seduz através do engodo, debate algum interessa, com o risco de ter a mentira exposta. A perda da hegemonia é, sobretudo, a derrocada de qualquer projeto de poder perpétuo. A divergência democrática inibe aos autoritários.

Não por outro motivo, assim que surgiu, passei a militar nas ruas através do Movimento Brasil Livre. Entender que a esquerda sempre empurrou suas pautas — digamos, de mais Estado — através de grupos de pressão ao ocupar os espaços públicos, foi o que me deu a certeza de que seria um erro não me inserir e participar do primeiro movimento social de direita liberal fundado em nosso país.

Assim que MBL, Vem Pra Rua, e tantos outros surgiram; não como guias da massa, mas como disseminadores de valores marginalizados que suspiravam por notoriedade; houve o despertar de uma multidão que, em sua maioria, jamais tinha participado ativamente de atos políticos, sobretudo por nunca ter se sentido representado nas manifestações violentas, odiosas e iconoclastas que a esquerda e seus instrumentalizados movimentos sociais e estudantis promoviam. A explosão difusa do inverno de 2013, que mobilizou milhões de pessoas por uma mudança incerta, mas urgente, gestada no seio de grupos ultrassocialistas, deu à luz a um filho verde-amarelo e decidido, com um objetivo enfim claro: o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Dissipou-se o monopólio das ruas e teve início um novo tempo.

Não é preciso que eu enumere os feitos que, nos manifestando nos últimos 19 meses, conquistamos. Todos sabem. Entretanto é primordial que entendamos para onde estamos caminhando e por que voltaremos às ruas no dia 31 de julho.

Naturalmente que a pauta número 1 é a de confirmarmos aos senadores que o anseio popular não se modificou e que, como antes, continuamos resolutos e inabaláveis na confiança de que não há outro caminho além daquele que expulsa definitivamente Dilma e o PT do centro de decisões. Junto a isso, e não menos importante, o apoio à Lava-Jato, a mani pulite brasileira, que precisa continuar passando o Brasil a limpo.

Mas também, por compreendermos que o impeachment é só o primeiro passo em uma guerra de toda uma vida, não se pode ignorar aonde nos posicionamos ao chegarmos até aqui. Realizar as maiores manifestações políticas da história do Brasil, quebrando o monopólio da esquerda nas ruas, deu-nos, em um setor fundamental, o domínio do meio-de-campo, ou do centro do tabuleiro, que eles insistirão em resistir ceder ao promover, ainda que minguados, atos contra Michel Temer.

Nossa responsabilidade no dia 31 do próximo mês não é apenas a de fechar a tampa do caixão, afastando de vez o fantasma de Dilma que insiste em assombrar nossos sonhos; mas é a de nos mantermos vigilantes e presentes nas ruas, nas galerias legislativas, nos meios decisórios e em todos os espaços públicos que nos forem proporcionados, para que possamos pautar o rumo político de nosso país através de nossos valores e ideais. O engajamento efetivo nestes novos movimentos sociais, ou o comprometimento de se fazer presente em atos ou financiá-los, é o que manterá o espaço tomado e empurrará sobre a classe política as mudanças que clamamos, como se cada um de nós fosse um peão artilheiro em um golaço de Kasparov.

Conservadorismo e liberdade: Ou ambos, ou nenhum

Sou conservador por acreditar que há padrões que devam ser estimulados em prol de uma sociedade mais saudável. A família biológica, a tradição da cultura ocidental, etc. Porém jamais toleraria um Estado autoritário ditando normas morais, por mais que eu concordasse com cada uma delas. Basta que o Estado não se meta a reformador cultural, aspirando uma educação planificada, que está tudo certo; podemos estimular a tradição por conta própria, como foi ao longo da história. Difícil é se livrar do jugo de uma cultura de regime autoritário, populista, de povo dependente e afeito a heróis e salvadores da pátria.

Se endosso um autoritarismo à direita, pensemos assim, abro o precedente para que haja, em contraponto, o autoritarismo à esquerda, com todas as implicações acima. Não estou disposto a apostar nessa roda da sorte. Por isso uma economia livre aliada a um Estado enxuto é tão ou mais importante do que dar murro em ponta de faca, brigando contra o “marxismo cultural”, enquanto se reivindica um “conservadorismo estatal”. Por mais que tenhamos uma agenda global progressista, quando se há um Estado pequeno e um mercado livre, as ideias e os modos de vida também costumam ser mais livres. Pelo menos em Edmund Burke, conservadorismo se tratava justamente disso. Se isso já não basta, me aproprio do que disse meu amigo Lucas Aguiar e trago outro motivo: o Estado moderno é iluminista, ou seja, movido pela dinâmica de transformação da sociedade por meio da hiperatividade legislativa.

Portanto, se critico pontos de Trump ou Bolsonaro — ou o que espera deles parte de seus simpatizantes, para ser justo — é porque prefiro viver em um progressismo escandinavo, do que em um conservadorismo franquista.

Afinal, conservadorismo é querer viver seu modo de vida sem ingerência estatal. Ter suas crenças, seu hobbies, educar seus filhos conforme convier, etc. Critico o petismo, ou o progressismo global em geral, porque pretendem nos tirar essas coisas quando planificam uma educação pública, ou estimulam o politicamente correto. Se eu, e todo mundo, pudermos viver conforme queremos, não estarei me importando se outros comem cocô na intimidade, desde que respeitem os limites da liberdade alheia.

Estimular uma sociedade mais saudável através de valores culturais é uma atribuição do indivíduo que, por meio da tradição, demonstra a eficácia e o quanto se é mais feliz ao viver daquele modo, tornando-se modelo natural. Coerção estatal tem o efeito contrário. Aquele que almeja o poder estatal somente para alterar o vetor da opressão, apontando àqueles que não seguem o que ele gosta, é somente um fascistinha vagabundo que está em desacordo com o conservadorismo e, se for cristão, com o cristianismo.

Meus 15 minutos de fama, baby!

Deus me ajude, pensei comigo. E fui. Meus 15 minutos de fama duraram pouco mais de 5. 50 mil joseenses me ouviram e caminharam comigo em prol do impeachment. Após o ato a TV vanguarda me perguntou alguma coisa. Deu tudo certo, respondi, e respondo. Crueldade indagar um menino absorto, que vê a tudo em um filtro ocular de sonho.

De lá para cá a situação confluiu ao seu destino. Tomou um rumo definitivo. Dilma vai cair e levará o PT junto consigo. Desde que o processo foi aberto, essa era minha certeza. Persiste sendo. A certeza ulula, enquanto o Lula percebe que o cerco se fechou.

Ora, a operação Lava-Jato, nossa “mani pulite”, ainda deixa dúvida? A quem não tem rabo preso, financeira ou ideologicamente, não. Sérgio Moro trabalha no fio da navalha, no limite da lei, mas não o ultrapassa. É impecável. Preparou-se a vida toda para fazer o que faz: prender corrupto. Especializou-se nisso nas melhores universidades do mundo. Dane-se a cor do partido, ele prende. Se até agora o foco é no vermelho, é somente porque o vermelho é a cor mais vibrante no estado de alerta.

E que satisfação me dá, pensar que por todo esse tempo estive na vanguarda, não na TV, mas do tempo. 50 mil estiveram comigo em São José dos Campos, mas quantos me acompanharam de lá, desde minhas primeiras críticas, engajamento, até aqui?

Não vou culpá-los. Tratarei deles como fez o pai ao filho pródigo. Há tempo. E ainda há tempo àqueles que, sem dúvida, hão de se vergar à força dos fatos, a despeito do medo e do orgulho, defeitos tão caros ao jovem.

Eu avisei, poderia dizer. Não direi. Ou já disse, implicitamente, para simular uma falsa modéstia. Não me culpem. É um sentimento completamente formidável sentir que sua luta não foi em vão. Se ano passado, quando acampei em frente ao Congresso Nacional, já houve quem duvidasse; que dizer do ano retrasado, quando denunciava durante a campanha o que hoje é desnudado publicamente? Como não lembrar o retorno do carnaval em São Luís do Paraitinga, quando dizia: “Acabou a festa, pessoal. Ano de eleição, agora é sério. Fora Dilma, hein”. Não foi na hora. Foi agora. Valeu a pena? Valeu muito mais a pena do que ter visto o Aécio vencendo a eleição. Perante o fascínio, há quem tenha dúvida: O que tem Scarlett Johansson? O óbvio: Tem o que quiser ter.

Eis que prevejo um leitor: “Mas que droga é essa, já está contando vitória?”. Tem razão. Não é hora de esmorecer. O endurecimento persiste. Mas não me tirem, não me tirem esse encanto de quem se dedicou tanto e sacrificou tanto por isso. Não quero que me agradeçam. Não fiz por vocês, seus bobocas. Fiz por mim, pela minha consciência moral, por cada linha de estudo que me dizia: “isso não está certo”. Fiz pelo justo, porque me finjo de velho, mas sou um menino que sonha como qualquer outro.

Sei que ainda há passos a serem dados, doloridos e longos, mas não temo mais nada. O tempo da insegurança se dissipou. Falta isso, aquilo; para ser o que sou, mas basta a perseverança para alcançá-lo. Daqui em diante eu só vou em frente. O Brasil também.

5 argumentos lógicos contrários ao aborto

Entra ano, sai ano, a sanha abortista volta a fazer barulho. Com a aproximação do dia internacional da mulher, a esquerda se aproveita para disseminar sua sede por sangue em toda rede social. Textos falaciosos e argumentos enviesados se espalham por todos os cantos, muitas vezes sem um contraponto efetivo.

Infelizmente, como falta difusão de informações e formação adequada, muitas meninas acabam embarcado neste discurso, ignorando o quão nocivo é o aborto, até mesmo para a saúde feminina.

Por isso, para propagar os argumentos lógicos que espantam a falácia e o sofisma dos abortistas, é que ordenei 5 argumentos definitivos para encerrar e vencer um debate contra eles. É bem provável que eles não se convençam, porque a racionalidade não os interessa, mas não podemos abandonar àqueles que procuram respostas. Portanto, vamos a elas.

  1. O argumento da vida humana 

“Não é vida humana, é só um amontoado de células”. Tudo é questão do que se pode provar. Aonde se inicia a vida humana? Em geral, um pró-vida crê que seja no momento da concepção, enquanto o abortista aposta em prazos mais longos, como após três meses de gestação. Ambas as perspectivas, e também algumas outras, possuem amparo científico. Isto é, não há um consenso indiscutível de em que momento se inicia a vida humana. Contudo, há um consenso científico que ANTES da concepção há vida, mas não humana.

Levando isso em conta, a única margem segura para que qualquer interrupção não seja POSSIVELMENTE um assassinato, é ANTES da concepção. Após, PODE SER um assassinato, e NINGUÉM pôde, até então, provar o contrário.

Deste modo, é absurdo requisitar que se permita, legalmente, o aborto. Se a vida humana é inegociável e tirá-la é inaceitável, o aborto em QUALQUER MOMENTO após a concepção não pode ser autorizado por se tratar de um assassinato em potencial. Autorizar o aborto após a concepção seria o Estado, sem qualquer evidência conclusiva, aceitar que se cometa algo que, a se verificar com o avanço científico, pode ser um verdadeiro genocídio. A atitude mais prudente, mais racional, no intuito de proteger a inegociabilidade da vida humana sob todas as possibilidades cabíveis, é a da não-legalização pós concepção. Não há nada que justifique o risco de uma legalização possivelmente assassina.

Este argumento deveria bastar, mas talvez o abortista não considere a vida humana tão inegociável assim. Neste caso o ideal seria denunciá-lo e cessar o debate imediatamente, por partirem de premissas distintas, entretanto é possível que seja necessário prosseguir o debate, de modo que me obrigo a partir para o segundo argumento.

  1. O argumento bioético

“Mas se nascer, vai viver sob quais condições?” Sob as que construir ao longo da vida que lhe for proporcionada. Século passado o líder nazista Adolf Hitler adotou estudos eugênicos para embasar grande parte das atrocidades que cometeu contra a humanidade. Acreditando na superioridade racial de brancos arianos, característica majoritária entre o povo alemão, justificou o massacre de judeus e outros povos inferiores como modo de alcançar um modelo ideal de homem. A eugenia atribuía, por exemplo, a criminalidade à miscigenação. A segunda guerra mundial só foi possível porque Hitler acreditou que o valor da vida humana era inferior ao valor da humanidade ideal que almejava. Valia a pena matar para alcançar um mundo melhor.

Joseph Stalin, por sua vez, pensava o mesmo que o líder nazista, mas partindo de outros ideais. Para o líder comunista da União Soviética, o Estado socialista, comandado pela ditadura do proletariado, era o primeiro passo para uma sociedade igualitária e livre de explorações e propriedades. Assim como Hitler, Stalin matou milhões de pessoas em busca de um mundo melhor, ignorando a eugenia para levar em conta o materialismo histórico dialético, baseado nos escritos de Karl Marx e Engels, que anularam a figura de Deus e o sagrado da vida humana perante a utopia da sociedade perfeita.

Ambos achavam que a vida humana não era inegociável, e que matar uma vida humana em prol de um projeto teoricamente bem intencionado, justifica-se.

Neste argumento, não é possível convencer um abortista que adote qualquer uma dessas visões deliberadamente. A única resposta possível é o mais completo e absoluto desprezo. Contudo muita gente reproduz ideias muito parecidas por ignorância, e a estas é preciso deixar bem clara a relação entre o que dizem, e o que estes dois sanguinários disseram, e fizeram.

É o caso, por exemplo, daqueles que argumentam favorável ao aborto, apontando problemas e mazelas sociais. A mãe sem recursos financeiros; abandonada pelo pai; sem teto; sem fonte de alimentação; dependente química; etc, etc. São inúmeros os argumentos nesse sentido.

Todas, sem exceção, são críticas válidas ao estado de coisas em que vivemos. Realmente esses problemas existem e precisam ser resolvidos. Pessoalmente, considero todas essas mazelas de fundo moral, mas isso é outra história. Acontece que NENHUM desses argumentos justifica o POSSÍVEL assassinato de uma vida humana para “preservá-la” de algo. Histórias de redenção nas mais adversas condições são incontáveis.

Se o abortista tiver consciência que a vida humana é inegociável, basta apontar estes fatos para que ele não volte a repetir argumentos tão nefastos, sem perceber o quanto se assemelha a ideias repugnantes que nos deram uma pilha de corpos no século passado. Ainda assim, é possível que reste algumas dúvidas, e é por isso que partimos ao item 3.

  1. O argumento do corpo

“Mas se temos a propriedade do nosso corpo, somos obrigadas a carregar nele algo que não queremos?”. É terrível ter de responder uma questão que presuma uma mãe que rejeita o filho, mas, como o mundo não é (e nunca será) perfeito, compreendo haver muitas coisas tristes que antecedem este ponto lamentável. Portanto, por mais doloroso que seja, isso acontece, e é preciso a hipótese seja contemplada.

Neste ponto, há duas perspectivas: uma que aceita que possa haver concepção indesejada (além dos óbvios casos de estupro) e outra que rejeita, reivindicando que em praticamente todas as concepções há a anuência implícita à concepção. Ambas negam o aborto. Vamos as duas, pela ordem.

Na concepção indesejada, temos o caso de uma mulher que manteve relações sexuais sem o desejo de engravidar. Ela estava ciente da possibilidade, mas não tem interesse em manter uma gestação. Como o corpo é dela, é legítimo que aborte, expulsando algo indesejável de dentro de seu corpo? Sob este prisma, em tese, a resposta seria sim. Se o corpo é propriedade da mulher e ela não quer carregar um bebê em seu ventre, pode expulsá-lo. Contudo, levando em conta o concluído no argumento 1, onde após a concepção a interrupção PODE SER um ASSASSINATO, e tendo em vista a consideração óbvia que nos leva a concluir que o ser indesejado POSSIVELMENTE — e supostamente, neste caso — é uma vida humana, com sua inegociabilidade tal qual a da mãe, chegamos ao entendimento que a mãe tem todo direito de interromper a gravidez, DESDE QUE este gesto não MATE a vida humana expulsada.

Até então, não tenho conhecimento de nenhuma máquina, aparelho ou estrutura que possibilite a manutenção da vida humana após a interrupção precoce da gravidez. O que nos leva a concluir, neste caso, que, em tese, a mãe poderia interromper a gravidez, desde que potencialmente não matasse o filho. Como isso ainda não é possível, qualquer gesto abortivo seria caracterizado como um atentado à vida do ser pós-concepção e, portanto, ainda que o corpo seja da mulher, este gesto não poderia ser permitido.

Na outra perspectiva, onde presumimos uma anuência implícita, temos a seguinte hipótese: A menos que a pessoa esteja comprovadamente alienada sobre como surgem os bebês, ela está consciente que, durante o ato sexual, há uma abertura para a possibilidade da fecundação do óvulo e da concepção. Ainda que seja utilizada camisinha, ou outro método contraceptivo, nenhum deles possui 100% de confiabilidade e isto é notório; ou seja, há uma anuência implícita à possibilidade, mesmo que essa anuência à possibilidade seja de apenas 0,00001%.

Portanto, seja qual for seu entendimento, ou a leitura de seu opositor no debate, não há, sob o ponto de vista do corpo, nenhuma justificativa realmente válida e lógica que justifique a legalização do aborto.

No entanto, mesmo chegando a este ponto e sabendo de todos os fatos expostos acima, seu adversário pode lembrar da ineficácia do combate a este crime, e é aí que partimos para o quarto argumento, entrando nos últimos dois, os mais simples.

  1. O argumento da criminalização 

“Mas as mulheres continuarão a fazer aborto, só que ilegal”. Nessa linha, talvez seja uma boa legalizarmos o estupro e todos os demais crimes. A criminalização não ser efetiva em combater o aborto não é um fenômeno exclusivo deste crime. No Brasil, a criminalização não é efetiva em combater estupros, assaltos, tráfico, demais assassinatos e crimes em geral. Não é preciso usar muitos neurônios para perceber, e contrapor, o absurdo desta argumentação.

O aborto, assim como todos os crimes, tem sua segunda maior causa na impunidade, a primeira é a degradação moral. Se tivéssemos uma justiça rápida, eficiente e justa, que punisse efetivamente os crimes, de acordo com sua gravidade e circunstância, não teríamos tantos crimes no país. A certeza da impunidade é o maior propulsor do crime que temos, ao contrário do que alguns dizem, ao considerar a desigualdade social mais preponderante, quando este é apenas o terceiro fator.

Se o aborto PODE SER um assassinato e, por isso, é proibido; faz-se necessária uma fiscalização séria de clínicas clandestinas e de toda a rede pseudo-médica que lucra com esse ato hediondo.

É verdade que a criminalização não os impede, mas um rigor maior inibiria muitos casos e cessaria a facilitação gananciosa dos doutores açougueiros. O fim da impunidade salvaria muitas vidas.

A esta altura, sabendo que a ineficiência da criminalização é uma falácia sem precedente racional, e levando em conta a importância da punição, seu adversário poderá escorregar para a última hipótese, quando a mulher, sozinha e resoluta, decide abortar por conta própria, sem apoio algum, já que o cerco se fechou. Enfim, chegamos ao último argumento.

  1. O argumento da saúde pública

“Aborto é caso de saúde pública”. Claro, sobretudo quando sabemos o quão mal faz às mulheres. Rememorando o primeiro argumento, podemos repetir que “tudo é questão do que se pode provar”. Há poucos estudos tão claros e amplamente documentos quanto os que dão conta dos malefícios físicos, psicológicos e emocionais do aborto na mulher.

Ainda que todos os itens anteriores fossem negados, e a mulher tivesse direito ao aborto, caso não desejasse a gravidez; mesmo assim elas teriam de lidar, após o ato, com todas as conseqüências nefastas que o aborto traz à saúde feminina.

Muitas vezes, o argumento da saúde pública, ignorando o sofrimento materno perante o aborto, alia-se ao item 2, levando em conta uma perspectiva de higiene social. Sem conseguir sanar problemas de saneamento básico, por exemplo, além de demais mazelas nas camadas mais pobres, o estimulo ao aborto passa a ser uma forma de controle de natalidade. Naturalmente, encontra-se aqui um problema de saúde pública junto a um problema social. Nada que justifique a flexibilização da vida humana, exceto para quem pensa como aqueles dois homens que vimos no mesmo item.

Tal como é impossível impedir ou monitorar um suicida resoluto, algumas mulheres, sob determinadas circunstâncias desesperadoras, continuarão a intentarem contra suas gravidezes e contra si mesmas, ainda que isoladas e sem amparo. Quem o faz, tem um grave problema que a perturba, sendo estes sociais, pessoais, físicos, psicológicos ou emocionais. Problema de saúde pública, ou problema, simplesmente, têm todas que recorrem a este fim para interromper uma gravidez.

Portanto militar pró-vida, não é apenas buscar salvar a vida do bebê. É também preservar e guardar a vida da mulher.

Neste dia 8, dia internacional das mulheres, não deixem que a ideia contrária prevaleça. Demonstremos quem realmente se importa com elas, eliminando a mentira esquerdo-feminista que pretende as enganar.

Espero que estes 5 argumentos possa te ajudar no debate e que, através dele, você possa salvar 2 vidas que sejam.

Uma não é possível, porque ao impedir um aborto, são duas pessoas que sobrevivem.

A Amiga Feminista

Semana passada estávamos o sobrinho do Reinaldo Azevedo, Walter Azevedo, e eu, no bar do Gel tomando umas Antárticas e discutindo soluções para a humanidade. Entre a quinta e a sexta garrafa decidimos que a culpa era do Lula. Já partíamos para um assunto mais relevante: mulheres, quando apareceu nossa amiga feminista com uma camisa do Che Guevara, escrita: é proibido proibir.

Lembrei-me, ato contínuo, da última vez em que ela se encontrou conosco; era véspera de segundo turno presidencial mas, dada as dissonâncias políticas, procurávamos tratar de assuntos mais inofensivos, como música e o time do Palmeiras. Tomamos mais algumas Antárticas e acompanhamos nossa amiga na dose de Tequila quando, papo vai, papo vem, ela decide provocar o machismo do Walter e pergunta: – O que você achou da minha saia? – Era uma minissaia rendada, branca, que não passava da metade da coxa. Antes que ele continuasse seu balbucio, foi interrompido – Não acha nada! Não tem que achar nada! Meu corpo, minhas regras! – E saiu, indo acender um cigarro na porta do bar.

Ficamos paralisados, mudos, embasbacados com a agressão gratuita. A amiga feminista queria que os homens olhassem as mulheres e não pensassem ou achassem absolutamente nada. Queria que tivéssemos ao retrato feminino o mais completo e translúcido vazio mental. O mesmo vazio mental que possuem as militantes feministas. Estratagema para que haja igualdade de gênero, pensei rapidamente, com medo que ela descobrisse por telepatia.

Com esta lembrança latente, ficamos encolhidos em nossa mesa, medrosos que a fúria feminista se voltasse contra nós tal qual a última vez. Mas a amiga veio sorridente, com os olhos rútilos e o passo flutuante dos alcoólatras. Oi meninos, disse, e sentou, pedindo uma tequila. Já tremíamos na iminência da explosão felina quando o celular dela soou a internacional socialista: – Oi amor, tudo bem? – Disse ela, ao que Walter e eu nos entreolhamos – Já estou aqui no Bar do Gel com uns amigos, pode vir, e desligou. Então nos contou que estava namorando um rapaz muito lindo, inteligente, divertido, que a respeitava e não era machista. Todo seu corpo resplandecia feminilidade como nunca. Seus seios e seus lábios vibravam de volúpia ao dizer o nome do prometido: Paulo. Paulo…

E enfim chegava o dito cujo, com seus óculos de armação grossa, camisa xadrez e barba densa. Fumava um cigarro ‘paiero’ e falava sobre Bergman e Tarkovsky. Dizia-se cineasta inédito que, por ora, fazia freelas de fotografia e casamento para: “comprar o beck”. Uma figura com um carisma fulminante, seu pedantismo era tão ingenuo e puro que eu tinha vontade de abraçá-lo. Nossa amiga feminista olhava-o com devoção. As pálpebras saltadas emolduravam os olhos faiscantes e embriagados. Vez ou outra ela lhe dava beijos no pescoço e na orelha, aspirando seu invulgar perfume de rolo de fumo.

Logo eles foram embora, deviam ter planos mais interessantes do que uma mesa de bar com dois machistinhas incultos. Durante toda a noite nossa amiga não tinha dito um chavão feminista, não tinha reprovado uma afirmação machista sequer que destilamos a noite toda. Ficara por todo o tempo hipnotizada em seu hipster charmoso.

Longe dela, já no caminho de volta ao lar, tive a liberdade de pensar sem medo de telepatia: O ser humano só consegue estar apaixonado por uma coisa de cada vez. Qualquer coletivo de viés político move e é movido por paixões. Essas manifestações, à direita ou à esquerda, são realizadas por pessoas que não estão apaixonadas. Ou melhor, que estão apaixonadas pela causa política. Os apaixonados entre si, entre pessoas, passeiam no parque e lambem sorvete de bola, alheios aos problemas políticos.

Marx problematizou a luta de classes, Gramsci viu o empecilho da fé, mas nenhum deles pensou na mais profunda e clara alienação do apaixonado. A revolução sempre sucumbirá ao amor.

Os vira-latas do amor

“Essa gente que ama e desama o tempo todo, pelo menos da boca pra fora, em dezenas de relacionamentos, geralmente é quem quer falar de amor. Sabem o que de amor, esses vira-latas?” A citação, vaidosamente, é minha. Numa monografia, isto não seria permitido. Dizem que para se auto-citar é preciso pós-doutorado; isto é, o universitário não pode ter opinião, só pode reproduzir a opinião alheia: Eis o modelo de formação das nossas universidades.

Mas não é disto que se trata esta crônica. A citação é com outro propósito. Quero falar sobre amor. Vocês já notaram que a turminha do “mais amor, por favor” são, em geral, os vira-latas do amor; ou seja, aqueles que enlaçam o desejo sexual ao amor e vice-versa? Essa gente não faz ideia do que é amar.

Ontem mesmo encontrei uma amiga neo-hippie, dessas que pregam o amor e odeia quem não faz o mesmo. Estava de cabelo preso e joelho sujo. Batia a mão na calça, tentando limpá-lo, quando me viu. Cumprimentei-a de um jeito tímido. Éramos amigos do tempo que eu postava poesia na linha do tempo, no Facebook. Eu ainda leio muita poesia, mas parei de postar. Poesia em rede social é para-raio de psolista. Logo, ela reprovou meus textos para O Reacionário e disse que preferia o tempo em que eu postava poesia e “coisas fofas”. Encerrou dizendo que eu precisava “de mais amor”.

Despedimo-nos. Fiquei pensando: sabe o que de amor, esse joelho sujo? Nada. É gente como ela que compartilha que acha justa “toda forma de amor”, chamando de amor o que é tara.

Esta é uma confusão recorrente, estimulada por toda a cultura contemporânea que nos rodeia. O que ninguém fala é que sexo e amor estão de lado opostos. Enquanto o sexo, isto é, o desejo, é egoísta e acaba com a posse, o amor é altruísta e “não acaba, se acaba, não era amor”. Amar é doar-se inteiramente; é dedicar sua vida à; é morrer pelo ser amado, se preciso for. Subjugar outra pessoa não é amor. Quem ama, quer proteger, pôr em redoma de vidro e manter o ser amado imaculado, longe do mal e da corrupção humana.

Ao contrário do que dizem as legendas dos recém namorados, amar não é aquilo; nem pode ser amor o que é tão recente. Namorar, quando com objetivo além do sexo e do desejo, é querer amar o outro e buscar construir o amor.

Não é coincidência que os casais que mais se amem são aqueles que vivem e envelhecem juntos, justamente quando o desejo já arrefeceu? O amor é muito mais evidente quando tudo que um casal quer é lembrar-se do horário do remédio do companheiro e cuidar para que o outro seja eterno, ao invés de querer usar o outro para o prazer. Quando essas revistas inteligentinhas sugestionam às mulheres coisas e mais coisas para manter o casamento “apimentado”, tudo o que estão fazendo é estimulando a efemeridade do casamento e, em conseqüência, a dissolução das famílias. Um casamento pautado pelo desejo está fadado ao fracasso, pois hora ou outra ele (o desejo) decai. Perceba: E se teu marido ou tua esposa, a certa altura do matrimônio, mesmo na juventude, tem uma problema de saúde que o impossibilita de viver a vida sexual? Para quem o sexo é o primordial do casamento, resta apenas o abandono, mas para quem alicerça sua união através do amor, isto é uma forma de reafirmar e fortalecer os laços. Quando o cristianismo estimula a castidade antes do casamento, nada mais é do que uma lição para o amor.

Minha amiga do joelho sujo, que diz me faltar amor, julga já tê-lo encontrado, mas não vê que ainda assim é infeliz. Ela só se saberá um vira-lata do amor o dia em que amar sem desejo, na velhice, e disser: — agora sim, amo pra valer. E amará.

Diálogos com a vegana da boca lilás

O assunto, caro leitor, é o mesmo. Mais uma vez a vegana será tema de minhas Crônicas Obsessões. Não me culpe, o destino quis assim. Quem poderia imaginar que, em minha volta ao parque, lá estaria ela, com sua beleza neurastênica.

Logo após encerrar minha corrida, parei para molhar a boca com água gelada em um dos bebedouros. Quando me ergui, ela se inclinou, ao lado, molhando a boca lilás. Sorri, fazendo menção de me afastar, mas ela se ergue rapidamente, dizendo “oi”.

— Oi, tudo bem?

— Tudo, e você?

— Tô legal

— Não te convenci, né?

— De quê?

— De parar de comer carne.

— Ah. Ainda não — ri.

— Li seu texto.

— Leu? O que achou?

— Tive vontade de ter chamar de imbecil, mas além de ser educada, percebi que se tratava mais de humor do que qualquer outra coisa…

— É verdade.

Surpreendi-me com a tolerância daquela menina. Como gosto do adverso, do debate, exceto quando a pessoa parte ou endossa uma ofensa, resolvi indagá-la para conhecê-la melhor.

— Mas me diz, então você é uma protetora dos animais?

— Sou. Não suporto ver alguém fazendo mal ao bichinhos.

— Ah, isso eu também.

— Mas você come eles!

— Como com amor.

Ela me olhou com uma cara meio feia, de modo que me apressei a mudar o rumo do assunto.

— E o que você pensa sobre o aborto?

— Aborto?

— É, de mulheres que fazem aborto.

— O corpo é delas, elas fazem o que quiser. Por quê?

— Mas e a vida?

— A vida também é delas.

— Não, a vida do bebê.

— Ah, mas ainda não é um bebê.

— O feto, o embrião.

— Não é nada, ainda.

Dessa vez quem fechou a cara fui eu. Ela percebeu rapidamente.

— Meu. Aborto é uma coisa, veganismo é outra.

— Isso eu sei.

— Posso até repensar minhas opiniões sobre o aborto, mas com o vegetarianismo sou radical.

— Fanática?

— Sou. Fanática.

— Rodrigo Romero não curtiu isso.

— Quem?

— Nada. Esquece.

— Quem é Rodrigo Romero?

— Ninguém.

Enquanto conversávamos tudo isso, não estávamos parados, fomos caminhando até a saída do parque, lentamente, sem que tivéssemos deliberado sobre isso. Quando atravessamos o portal, ela perguntou.

— Para onde você vai?

— Vou pra casa.

— Mora aqui perto?

— Não, moro na Vila Industrial, conhece?

— Sei. Eu moro naquele prédio ali, ó.

— Naquele ali?

— É. ta vendo?

— Tô. Sei qual é. Meu amigo também mora ali.

— Jura? Qual o nome dele?

— Lucas.

— Como ele é?

— Ah, ele é alto, magro, tem uma barbinha…

— É bonito?

— Pra caralho.

— Então não é quem eu tô pensando.

— Quem sabe a gente não marca alguma coisa lá na casa dele?

— O quê?

— Sei lá, a gente toma uma cerveja, come um sushi.

Ela me olhou como se eu a tivesse convidado para um velório. Depois me toquei que, para ela, era mesmo.

— Foi mal.

— Tudo bem, mas, viu. Por que a gente não toma uma cerveja agora?

— Agora? Aonde?

— Ué, aqui no Disk, mesmo. Pode ser?

— Hoje?

— Agora! Não pode?

Coloquei a mão no bolso traseiro, sentindo a carteira com um ar precavido.

— Vim desprevenido.

— Ah. Eu pago essa vez, você paga na outra.

— De jeito nenhum!

— Por que não?

— Comigo mulher não põe a mão no bolso!

— Que machista…

— Pode ser, mas não aceito. Não é papel de homem.

Ela continuou batendo na tecla do machismo, mas, no fundo, percebi que se sentiu de certo modo aliviada de não eu não ter aceitado. Há aquelas que negam, mas nunca conheci uma mulher que fizesse, realmente, questão do “feminismo” na hora de pagar a conta, e sinceramente acho justo que assim seja.

— Amanhã você vem correr de novo?

— Não sei, acho que sim.

— Aí a gente toma!

— Vamos deixar mais pra frente…

— Por quê?!

— Pra falar a verdade não to num momento muito legal, sabe?.. — Fiz sinal de grana com os dedos.

— Você não trabalha?

— Não. Quer dizer, trabalho, faço freela, mas tá foda.

— Não aparece trampo?

— Pouca coisa, pouca coisa. Seria legal encontrar uma vaga, mas sou mais uma vítima do governo federal.

Foi aí que comecei meu velho discurso, como a política econômica de Dilma fecha postos de trabalho e gera desemprego. No início ela parecia não concordar, mas ao ouvir um pouco, franziu o cenho e demonstrou assimilar as ideias.

— Pode ser…

— Vamos fazer o seguinte, na próxima te falo mais sobre isso. Por ora, vamos trocar os papéis, literalmente. Leva esse panfleto e dá uma lida, depois debatemos sobre ele.

— Fora Dilma?

— É.

— Você vai?

— Ô se vou. Mas é isso, depois a gente se fala. Meu bonde passa agora, preciso correr.

— Ah, ta ok, até amanhã, então.

— Não me beija. Tô suado.

— Não tem problema, também tô.

Foi aí que atravessei a rua e corri para o ponto, somente para ver o ônibus passando, passando… Uma hora e pouco depois cheguei em casa, tomei banho, jantei e dormi. Se não fosse a corrida, a ansiedade me mataria madrugada adentro. Gastar energia faz toda diferença.

Vegano é chato pra chuchu!

Sábado de carnaval resolvi dar uma corrida no Parque Vicentina Aranha. Um ou outro me sacaneou: vai sumir, vai sumir. Mandei-os passear. Evidente que não quero emagrecer, a ideia é readquirir condicionamento físico.

Explico. Dias antes, ao bater uma bola, agüentei pouquíssimo tempo antes de esgotar. Coisa que não me acontecia quando eu tinha 18 anos e enfiava a carretilha nos marcadores, como um Zidane bêbado. O pior foi a pontada no peito. Não, meu amigo. Quem dera fosse o amor batendo na aorta, conforme disse Carlos, o poeta. Era o bacon de toda santa quinta-feira, do super hamburgão do trailler perto de casa (só os idiotas comem no McDonalds, mais idiotas ainda os que se ofendem com esta afirmativa).

Eis que na lembrança salivante do bacon, me aparece um grupo de quatro corredores. Ultrapassaram-me numa velocidade rítmica o suficiente para me estenderem um folheto. Era uma moça bonita e magra, com o cabelo loiro e liso, exceto por um cacho de dread. Sua boca era de um vermelho pálido e arroxeado. Tinha olheiras sutilmente escuras em torno de olhos fundos e saltados, se é que isso é possível, e um piercing de argola no nariz.

Quando despontaram na frente, li nas costas: “Salvem os animais! Coma soja”, e tudo fez sentido. Sem cessar a corrida, dei uma olhada no panfleto. Condenava o assassinato… de animais. Dizia um sem número de argumentos para, no verso, arrematar com uma deliciosa receita vegetariana.

Não demorou muito, eles me davam mais uma volta (disse que estou fora de forma, não disse?). Lá estava a moça, ao meu lado, com sua beleza neurastênica. — Leu? Gostou?, perguntou, encarando. — Gostei — Menti, no impulso, não sei porque. A se ver pelo fôlego, talvez ela tenha feito a escolha certa.

Seus amigos seguiram, mas ela me acompanhou, conversando. Contou que não comia carne há 3 anos. Senti fome só de pensar nisso. Logo comentei que adorava carne e tudo mais, mas ela persistia, como uma testemunha de Jeová da música do Marcos e Belutti. Simpático e tolerante como só um homem é capaz de ser quando se trata de mulher bonita, admiti ouvi-la até pararmos de correr.

Foi quando fomos tomar água e uma barata surgiu entre nós. Ela gritou, contida, se afastando. Fiz menção de esmagar o inseto. Bastou para que gritasse mais alto: — Não mata! Não mata! — Nem teria tempo. A barata correu, assustadíssima (com o grito, suponho).

— Você é capaz de matar um ser vivo?

— Era uma barata.

— Tadinha! Exclamou, corando de forma inédita até então.

Senti uma estranha sensação de euforia. A menina era completamente estranha, mas exercia um certo fascínio sobre mim. A situação parecia a de um Gregor Samsa às avessas. Faltou veganismo na vida do Kafka.

Embalado em ideias literárias, pensei o que teria acontecido se o grito não fosse dado a tempo e a barata tivesse jazido sob meu tênis anti impacto. De repente a imaginei como a personagem de Clarice Lispector, comungando a barata morta num misto de culpa e delírio.

Senti enorme asco. De uma hora para outra, meu fascínio por aquela menina se esvaiu. Ela continuou me dizendo coisas, mas meu humor tinha se alterado completamente e tudo que queria era deixá-la. Convenhamos: Vegano é chato pra cachorro! Quer dizer, deixemos os cachorros aos chineses. Vegano é chato pra chuchu!

Por fim, consegui desvencilhar-me. Para recuperar a energia perdida na corrida, resolvi tomar uma cerveja bem gelada no Disk, ali em frente. Não resisti e tive que almoçar uma saborosa costela de porco. Sei que você lerá isto, então, desculpe, meu anjo. Volte quando eu terminar de ler A Revolução dos Bichos.